A Liberdade como Dogma: a coleção Niomar Moniz Sodré na Sotheby’s Paris

A Sotheby’s Paris apresenta “A Liberdade como Dogma”, um leilão que ultrapassa o território do mercado para se afirmar como um gesto histórico, político e profundamente simbólico. A coleção de Niomar Moniz Sodré Bittencourt não é apenas um conjunto extraordinário de obras modernas e contemporâneas; é o retrato de uma vida dedicada à liberdade, à cultura e à resistência intelectual.
Fundadora do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Niomar foi uma figura central na construção da modernidade cultural brasileira. Jornalista, editora do Correio da Manhã e voz ativa contra o autoritarismo, ela entendeu cedo que a arte não é neutra — é linguagem, é posicionamento, é ferramenta de transformação. Sua atuação lhe rendeu o título de “Dama da Resistência”, não como metáfora, mas como consequência direta de suas escolhas.
O leilão reúne cerca de 70 obras que atravessam o modernismo europeu e latino-americano, com nomes como Alberto Giacometti, Pablo Picasso, Jean Dubuffet, Max Ernst, Pierre Soulages e Maria Martins, entre outros. Mais do que ícones do século XX, esses artistas dialogam entre si como testemunhas de um período em que forma, política e pensamento estavam profundamente entrelaçados.
O que impressiona não é apenas o valor artístico das obras, mas a coerência intelectual da coleção. Niomar colecionava como quem escreve um texto crítico: cada aquisição fazia parte de uma narrativa maior, em que o Brasil se posicionava em diálogo direto com os centros internacionais de vanguarda, especialmente Paris e Nova York. Não havia acumulação gratuita — havia intenção, risco e visão.
Há também uma dimensão profundamente humana nesse conjunto. Muitas obras foram adquiridas diretamente dos artistas, fruto de relações pessoais e afinidades intelectuais. A coleção não se limitava às paredes; ela habitava a vida cotidiana de Niomar, moldando seus espaços, suas conversas e suas convicções. Colecionar, aqui, é um gesto de autoria cultural.
Apresentada em Paris, cidade onde Niomar viveu parte de seu exílio, a venda assume um peso simbólico adicional. “A Liberdade como Dogma” não é apenas uma retrospectiva privada, mas um capítulo essencial da história cultural brasileira sendo revisitado em escala global. É uma oportunidade rara de reconhecer o papel das mulheres — e, em especial, das mulheres latino-americanas — na construção das instituições, das ideias e dos imaginários que sustentam a arte contemporânea.
Este leilão reafirma algo fundamental: a arte não sobrevive sem liberdade, e a liberdade, quando ameaçada, encontra na arte uma de suas formas mais duradouras de resistência
Colecionar como forma de resistência

“Minha avó formou essa coleção como um manifesto silencioso, em que cada obra testemunha sua crença radical de que vale a pena lutar tanto pela arte quanto pela liberdade.”— Mauro Moniz Sodré









